segunda-feira, 23 de novembro de 2015







DINÂMICA  DA 13 – 01/ II SÉRIE – NO SEGUIMENTO DO 666

Lamento muito, mas soubeste-me a pouco
Pedro Chagas Freitas

01.
Não partas já. Fica só mais uns momentos. Muitos momentos até. Preciso de tanto tempo para pendurar, com firmeza, este amor na eternidade, que eu não sabia tão curta. 
Demora romper a teia, desenredar-me dos fios, abafar a canção dolente e o poema inacabado, trancar portas e janelas, conviver com o cinzento, esquecendo as outras cores da paleta que eras tu.
E tenho que descobrir como desfaço a magia, elimino a fantasia, transformo o afecto em raiva, enterro a saudade e a dor. Já não se morre de amor, mas soubeste-me a tão pouco! E apenas me ficou o sal da maresia que trazias nos cabelos, o brilho das mil estrelas bem no fundo dos teus olhos, o sussurrar dos regatos a moldar a tua voz, o estrépito da catarata no teu riso de menino, o macio das searas que era a tua pele.
Lamento muito, mas soubeste-me a tão pouco! Talvez eu fosse culpada de te engolir em golfadas, ao ritmo de um coração a correr desenfreado. Pensava que o meu amor chegaria para os dois. Foi uma pura ilusão: estavas ali ao lado, mas sentia-te a distância por trás das palavras mornas e dos gestos sem ardor. E é tão cego o amor que ouvia o que não dizias e lia o que não pensavas. E nesse engano quis viver, sem me desapegar da esperança de que o milagre acontece, bastando a gente querer.
E se o tempo tudo cura, vou aguardar o unguento que me cicatrize as feridas, que me dilua a mágoa, que me sare o coração. Que as lágrimas já secaram, como um riacho no Verão, estiolado na nascente. 
Na lucidez que me resta, dou por mim a pensar se esse tempo futuro também cura a loucura com que, ainda, te procuro no caminho tão escuro onde me largaste a mão.

TERESA MORAIS




02.
Um instante 
O seu corpo, ainda entorpecido por uma cama sem vida, deambula até àquela estação de comboios. E a manhã a ser. A cama agora era tão grande. Vazia. Não sabe como conduz o seu corpo até ali, todos os dias. À mesma hora, nem um segundo a mais nem a menos. O comboio anuncia-se, lá longe, naquela marcha contínua. É agora. O coração acelera. Mais um segundo. Os olhos pousam na janela. Sempre. A mesma janela, todos os dias, a adornar-lhe o rosto. E ela lá está, no mesmo lugar, junto ao vidro. Depois olham-se e dizem tanto. Era sempre assim, desde que a vida os deixara. Ela olhava-o e ele olhava-a. O ritual perfeito. Pouco mas tanto. Ela era tudo o que precisava para começar o dia a viver. Ele era tudo o que precisava para começar o dia a viver. E andavam assim, a viver. 
Ele chegou com o corpo entorpecido pela cama sem vida, como todos os dias. Não sabe como chegou até ali. Mas chegou à mesma hora de sempre. Nem um segundo a menos ou a mais. O ritual perfeito. Pouco mas tanto. O comboio anunciou-se ao longe. O seu corpo acordou daquela letargia e ergueu-se. Os olhos na janela de sempre. Não pousaram. Procuraram outra janela, mais outra e outra. Olhou o relógio. Voltou a olhar. Tantos rostos ali e nenhum era o dela. E ela era tudo o que precisava para o dia começar a ser. E agora? O vazio. Aquela ausência a não deixar o dia ser.
Alguém falou para ele:
- Olá!
Percebeu que havia gente na estação àquela hora. Muita gente. Sem nome. Sem rosto. Havia gente a dizer “olá” naquele dia que não era nada. Um dia reles, do mais reles que podia haver. Como era possível, alguém dizer “olá” num dia assim?
Olhou. Voltou a olhar.
Era ela. Voltara. Agora estava ali assim, sem uma janela, sem nada. Sem um comboio a levá-la para longe do olhar. Ela deixou-se de ser um instante e passou a ser tudo. Uma vida inteira. Voltaram a ser tudo.

ANA SIIMÃO




03.

Já não aguentava mais a penitência a que me propus: afastar-me de ti sempre que me deparava contigo; desviar o olhar, cabisbaixa, não cedendo, de modo algum, ao teu ar sedutor apetecível.
Mas como o proibido é o mais apetecido, não paravam de chegar à minha mente, lembranças do prazer que sempre me deste, que me arrebatava e fazia querer-te sempre mais.
Há um quociente directamente proporcional entre o que se deseja e o medo: quanto maior é o desejo, maior é o medo.
Há o medo de perder o que mais queremos e, também, de perder o controlo e cair no excesso, na submissão e dependência.
Sinto, em mim, um jogo de forças entre a razão e a emoção; uma espécie de sobreposição de poderes onde o meu querer é anulado.
Não vale a pena desejar-te, salivar de gula de tanto te querer, imaginar apenas tocar-te, porque a cabeça impôs a regra da não cedência.
Paradoxalmente, é na cabeça que começa os preliminares da traição: pensamentos de nós dois juntos, sentir a minha mão a tocar-te, poder percorrer os meus lábios em ti.
Quero-te tanto! Adoro-te! Sinto o meu olhar a derreter sempre que passo por ti e me permito espreitar-te.
Há umas horas que ando baralhada. Questiono-me do porquê desta minha proibição a mim mesma. Nunca fui masoquista, para quê sê-lo agora?
No entanto, assalta-me à consciência a culpa do pecado. Tenho de ter força de vontade, comportar-me com rigor.
Foi na cozinha da minha casa a ultima vez que te vi. Estavas maravilhoso!
A imagem deste último momento não parava de me assolar a cabeça. Tinha que te ver de novo, te sentir, tocar-te com todo o meu desejo.
Voltei à cozinha na esperança de ainda te encontrar. Lá estavas, no mesmo sítio, provavelmente também tu à minha espera.
Peguei-te, meti um pedaço de ti na minha boca, lambuzei os dedos cobertos de chocolate e pensei: “ Lamento muito, mas soubeste-me a pouco”.

FERNANDA MORAIS

04.
Lamento muito, mas soubeste-me a pouco.
Encontrei-a num tempo frágil, quando a vida parecia ter quebrado todas as cordas e amarras que a prendiam a um ciclo que quis terminar. Falava-me de penas, de sonhos perdidos, de aves sem asas e de imagens sem cor. Falava-me de um espaço em que se sentira presa e de asas que batiam sem voar. Contava-me, minuto a minuto, a caminhada que não fizera no dia em que se prendera – sem o desejar – a uma estrada que não andava e a imobilizara entre o novo e o sol nascente.
Queria ser escutada – e falava como se eu não estivesse ali. Ouvia-a sofregamente como se o deserto – ali tão perto – paralisasse uma nuvem de sombras que não sabia ou não queria tornar reais. Sentíamos o esvoaçar da passarada à nossa volta. Quis apoiar aquela mulher que sentia a chuva a molhar-lhe o rosto e o sol a tisnar-lhe a pele. Outra vez.
Pediu-me uma mão, um ombro para chorar, uma canção para recordar. E fizemos longas caminhadas ao nascer do sol, quando a brisa chegava e as confidências se enredavam num mar de luz e cor, quando tudo parecia ter parado e o mar se desmanchava em ondas de areia. Fui uma voz que escutava, um livro que se abria, um som que se irmanava. E percebia-a a renascer. Dei-lhe tempo e respeitei o seu desassossego. Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.
O tempo, que tudo sara e tudo esquece, fez com que, um dia, me sentisse a mais e dei-lhe espaço para se revelar – aos outros e a mim. 
Foi então que desvendei uma face escondida e alguém que realmente desconhecia – senti que uma flor se desfolhava e as pétalas caiam, como lágrimas de sal em pingos de chão. Vi uma imagem encoberta, feita de raiva e ambição, espezinhando quem, ao seu lado, lhe estendia a mão. Deixou de sorrir – ria-se dos outros. Já não amava – fechava-se num turbilhão de corridas e amores. Já não se ouvia, nem ouvia ninguém. Usava os sentimentos como quem amarrota uma folha de papel.
Voltei a encontrá-la, num redopio de fama, procurando auditório e público. Ouviam-na sem a escutarem, lisonjeavam-na sem a apreciar. Tinha olvidado o passado e sabia-se bem.  
Eu é que nunca percebi quanta falsidade lhe cabia no olhar e quanta desilusão semeara por entre as pétalas que espalhei pelo mar.
ALBERTINA VAZ

05.
666
Soubeste-me a pouco.
Da porta, olho o teu corpo estendido. Adivinho pequenas gotas de suor a percorrerem-te a pele. Sinto o arrepio. A língua com vontade própria. Cravo os dedos na maçaneta e resisto.
Pouco. Muito pouco.
A fome de ti a consumir-me, na espera. A antecipação de te saborear quase mais tangível que o momento de ter-te. Volta a memória de cada instante em que te vigiei. De longe. Assim que te escolhi e soube que eras tu que eu queria. A qualquer custo. Adivinhei-te o cheiro e o sabor. A textura nos meus dedos. Como uma premonição.
O cheiro, o sabor, a textura nos meus dedos. Crispo-os ainda mais na porta entreaberta. A boca entreaberta. A língua. Chegas-me em ondas de calor da cama onde ficaste. Apenas um corpo estendido e um sabor a pouco. Muito pouco.
Voltava. Apenas meia dúzia de passos nos separam. Vigio-te, como antes, de longe. Aprecio, como num filme antigo, as linhas do teu corpo que me fizeram ansiar por ti quando te movimentavas em pequenos gestos que te tornavam único. Entretecias-me, enredavas-me. E era eu a aranha.
Experimento a antecipação de saborear-te. Cresce-me uma fome de ti renovada. Podia voltar.
Mas és apenas um corpo estendido: exangue. E agora que te consumi, até ficares sem vida, já não há volta a dar.
Lamento muito.
EDUARDA FAIA

06.
Gostaria de ter tido a oportunidade de te saborear como mereces. Mas o tempo urge. Hoje, lamento muito, mas soubeste-me a pouco.
Queria ter podido contar na tua pele todos os poros que a compõem, um a um. Deliciar-me a sugá-los, lenta e pausadamente, para que o teu sabor ficasse no meu palato indefinidamente.
Os teus lábios, por vezes fugidios, não se entreabriam para os meus como eu desejava. O baile de línguas que trocávamos, ao som de uma valsa de  Johann Baptist Strauss, deixavam-nos estonteados, de tanto rodopiar.
As nossas mãos entrelaçadas, apertavam-se, intensamente, sempre que um gemido mais forte se soltava das nossas gargantas (roucas), no ato de união em que culminavam nossos corpos.
Quero-te. Quero-te mais do que tudo e do que a ninguém e continuo carente, porque o muito que me deste foi tão pouco, para saciares a minha sede de ti.

Nesta voz triste que me invade apenas digo: 
- Partistes sem que pudesse fazê-lo. Lamento tanto!

NATÁLIA VALE


07.

“Lamento muito, mas soubeste-me a pouco”
                                                       (PCF)

Recordo os tempos em que não permitíamos que nada interferisse na beleza do que vivíamos. Recordo o modo como me olhavas e como eu me perdia no azul infinito do teu olhar. Recordo também o som das tuas palavras a acariciar-me o coração. Recordo ainda o riso descontrolado e à solta por debaixo dos lençóis… Recordo sobretudo o toque da tua pele com cuidado milimétrico para não rasgar a minha…

Ah!, e lembras-te daqueles apetites incontroláveis durante as madrugadas em que teimávamos não adormecer? Devorávamos tudo, menos a vontade de nos consumirmos…

Hoje vi-te. Não somos os mesmos, eu sei. No entanto, não resisti às recordações. E provoquei-te. Mas ao primeiro: ‘lembras-te daquela noite no terraço…?’ - desviaste abruptamente o assunto.

Não desisti. Insisti: ‘E a promessa feita na praia…?’- vociferaste, e fizeste-te desentendido.

Dei por mim a pensar: Pobres os que rejeitam o passado, pois dificilmente terão o presente feliz.

Quis que soubesses que muitas vezes penso em nós! Não penses que te quero ainda, mas quero que saibas onde te quero: no passado! É lá que te procuro e é lá que quero encontrar-te! Jamais o negarei. Fica sabendo que te recordo sempre que necessito e sempre que me apetece.

Hoje vi-te e, sinceramente, lamento muito mas soubeste-me a pouco.

Acho mesmo que vou subtrair este dia ao rol das tuas recordações, para não perder o encanto que um dia trouxeste à minha história!

Subtraio, para adicionar sabor à vida!

27/10/15
ANA BRITO LANÇA


08.
O meu estival vestido repassava os orvalhos frescos das flores… que as minhas costas aprisionavam languidamente – deitada na tua espera – em lenta perseguição das formas de algodão doce que dançavam valsas no cerúleo reflexo … dos teus olhos. A brisa tépida avançava em movimentos serpenteados abrindo caminhos, candidamente dissipáveis, até aos beijos roubados à minha pele iluminada - no teu sorriso. As tuas pétalas dedilhavam-me a alma em êxtase, escorregando pela curvatura acentuada do meu corpo – acendendo sensações que nem lavas de vulcões palidamente imitavam. Nos meus olhos: o teu desejo - em beijos doces de promessas deixadas nas gotículas cristalinas do avançar da manhã. E nesse doce enleamento gerámos o nascer da tarde. Ainda terno esse outono, nessa folhagem caída sobre os meus olhos que tão bem te reflectiam. E todos os nossos instantes sorriam perenes mesmo nos ventos das tempestades tropicais, que batiam forte e depois seguiam. Mas as folhas avermelhadas, em danças bem delicadas, pela minha pele expectante ainda escorriam, em beijos que mal afloravam aos meus lábios que te queriam. E com o avançar da tarde os nossos momentos escorreram no rápido movimento das horas torturadas em espirais descendentes de desejo. Sobraram as esperas de gestos ausentes, aniquilados, sem o teu corpo a meu lado. Sem o teu prazer adormecido, extenuado, sobre o meu ventre húmido e acalentado. E com o lusco-fusco do anoitecer chegou o inverno. Na gélida neve apenas as minhas pégadas ficaram marcadas, perdidas em distâncias irregulares, titubeantes, estonteadas na ausência do teu oxigénio: esse sabor tão conhecido que os meus olhos deixaram de ver. Esse beijo onde eu morava e onde morri na aridez do teu deserto. Neste inverno mudaste de repasto, trocaste de sobremesa e na tua ousadia quiseste o odor novo do sorbet de limão a acompanhar o delicado sabor do suofflé de chocolate. Encharcaste-me as medidas na lisura gélida e esverdeada dessa essência descorada. Resta-me o sal dos olhos para te dizer: lamento muito mas soubeste-me a pouco.

PALMIRA MARCELO

09.
As palavras secam imediatamente antes de saírem, tal como flores cortadas. 
Murcham.
Invento um ponto no tecto como um desafio de lógica. E não consigo passar para além do que os olhos dizem.
Morremos.
Perdidos num tempo que não foi medido, no momento que passou sem que lhe dessemos a devida atenção, mantemo-nos estáticos. O tempo tem destas coisas: evade-se sempre que não lhe ligamos.
Silêncio.
Dizes que estás satisfeito, feliz mesmo. Leio-te nas palavras que não dizes. Basta-me o teu corpo. É suficiente olhar-te como um gato, feliz ao sol, para saber como te sentes. 
É reflexivo.
E eu quero falar. 
Quero dizer-te o que preciso que saibas. Quero que saibas o que preciso dizer-te.
Ainda assim as minhas cordas vocais não me obedecem. Desenho espirais no recanto do lençol que arrefeceu. Aliso uma ruga imaginária só para não ceder ao esforço.
Desgasto-me em silêncio.
Está frio.
Puxo o cobertor. Dá-me alento. Talvez me dê a força que deixei de sentir. Fico quieta. Tento aquecer o gelo que se forma por dentro. Na minha cabeça já se formam novas palavras. Talvez sejam estas a definir o caminho. 
Levanto-me.
Olhas-me, embrulhada num lençol que guarda o cheiro e o sabor do que foi. Adivinho o correr do pensamento físico. Formo imagens que conheço bem demais. 
Adivinho-te.
Sorris-me.
Vacilo no ceder das pernas. Estás, agora, demasiado perto. 
Vacilo.
Apoias o meu corpo que desfalece com falta de vontade própria, por vergonha alheia. E o teu braço é demasiado na minha pele. O teu corpo faz-me sombra. E eu gosto.
Perco-me.
Passaram horas. Talvez minutos. O tempo tem uma forma estranha de se mostrar. De se evadir. As palavras voltam em força numa mente menos inebriada. O corpo está mole, dá espaço ao cérebro.
Respiro.
Começo com ar roubado. Começo, principalmente, pela frustração. De tantas coisas que te queria dizer sei que nenhuma fará sentido. 
É físico.
E eu sei que tu sabes. E sei que não podes dar mais. Não sabes como dar mais.
O meu corpo já te pede. A minha cabeça repulsa-te. Como podem duas partes de mim estarem tão dissonantes?
Afasto-me.
Só a distância me deixa contemplar a diferença entre o corpo e a alma. Só o espaço permite a lucidez. Completo só tem um significado possível. E nenhuma dúvida.
Perdemo-nos.
Desisto de vez. "A razão tem destas coisas".
Saio.

INÊS PITA

10.
Lamento muito mas soubeste-me a pouco…

Foi no preciso, nota bem, no preciso minuto em que decidi ficar contigo para sempre, precisamente nesse minuto, notaste bem? (ele há cada coisa), foi nesse mesmo minuto, vê tu, que podia ter sido noutro minuto qualquer, mas não. Eu sessenta segundos antes e tu sessenta segundos depois. Eu sessenta segundos antes a pensar que afinal sempre te queria para sempre, e tu sessenta segundos depois a dizer-me que afinal não podias ficar.
Concentrei-me a pensar quanto tempo vivido a sério poderia caber dentro de um minuto e no que representava o advérbio afinal; afinal seria mesmo para sempre? Ou o artigo definido, feminino, singular que antecede a palavra final poderia emprestar-lhe outro significado que não fim, que não final.
Foi nestas parvoíces que me detive, enquanto arrumavas as tuas coisas, pregada na ombreira da porta, ainda vislumbrei a nossa cama, perdão, a minha cama e o teu corpo desenhado nela, foi só um vislumbre porque de imediato desatei a sacudir os nossos, perdão, os meus lençóis e desapareceste. 
E falavas, eu sei que falavas, mas eu tentava não ouvir, afinal para que servem as desculpas, o não és tu, sou eu, a minha mulher, sabes, afinal perdoou-me. Sorri, a minha mente deambulava para não me concentrar no que dizias, em busca de socorro tropeçou uma vez mais, afinal a tua mulher perdoou-te, afinal.
 Afinal havia outra, a pirosa melodia infiltrava-se lentamente e eu sorria estupidamente: “Afinal havia outra e eu sem nada saber sorria e por ele andava louca qualquer coisa, qualquer coisa… um dia. A canção ecoava, e ecoou muito depois de teres saído, disseste que talvez pudéssemos ser amigos, e eu sorri -“afinal havia outra…lalalalalalala”-, que podíamos, talvez, tomar café, e eu sorri -“afinal havia outra…lalalalalalala”-.
Não sei quanto tempo permaneci sentada no chão depois de te ter fechado a porta -afinal quanto tempo é um minuto?- . Sei que o que preciso agora é de te desentranhar, não sei quanto tempo demora, não sei quais são os estragos -“afinal havia outra…lalalalalalala”-.
-“Afinal eu era a outra…lalalalalalala”-.

SANDRA CORGA FIGUEIREDO

11.
"Lamento muito, mas soubeste-me a pouco" de Pedro Chagas Freitas.

"Fechou a porta em grande estrondo como trovão de uma tempestade iminente. Quis amá-la, achou que podia (ou devia), por ela, por ele. Era perfeita, tinha tudo, menos o que não tinha: o seu amor. 
Reconhecia no seu sorriso as brincadeiras de infância, as férias de verão partilhadas na rua, presos às asas de uma imaginação que lhes permitia ser quem quisessem, num escasso número de metros quadrados onde cabia o mundo, além dos dois. 
Encantou-se no brilho que lhe faiscava nos olhos, castanhos, grandes (tão certa de tudo mas duvidosa de si mesma), no seu sorriso gaiato capaz de lhe sulcar no rosto duas bonitas covinhas que lhe destacavam os lábios, finos, bem delineados, que o convidavam a prova-los. 
Ponderou fazê-lo, perdido nas ruelas escusas do seu egoísmo, fugindo das sombras tenebrosas da paixão (que ainda o acendia na solidão da noite escura). Precisava libertar-se das amarras: só um amor pode fazer esquecer um outro.
Podia amá-la, retribuir-lhe o sentimento (amava-o, ele sabia), era meio caminho andado. Fariam como tantos outros casais e seriam felizes, ou agiriam como se o fossem - aos olhos do mundo - alheios ao reflexo que, cada manhã, uma após outra, o espelho lhes devolveria, sem hipocrisia.
Viveriam na mentira, na fantasia das brincadeiras de infância? Tantos o faziam, sem se queixarem, parecendo conformados, aceitando a mentira como verdade fosse. 
Não o fez, por ela, merecia-lhe muito mais que a luxúria de algumas cambalhotas e a aparência de uma relação feliz; devia ser amada e ele não tinha essa capacidade. Podem amar-se duas mulheres?
A luz do relâmpago iluminou-o, sentado no sofá em frente à porta. Dentro de si ecoava o som abrupto do trovão. A chuva começava a cair, cheirava a terra molhada. Depois da tempestade viria a bonança."

NUNO FRANCO PIRES

12.
Desconhecidos conhecidos, curiosidade sôfrega, será, não será, gostarei, não gostarei, vontade de fugir, apetência em ficar, vai correr bem, será um novo desastre, que triste ideia.

E vi-te, finalmente.

Primeiros instantes tateantes, não quero assustá-lo, quero ser franca, miramo-nos a medo, lindos olhos, que enlevo, perdi-me por instantes, um sorriso, acenos, anuo sem saber com quê, que triste ideia.

E acalmo-me, finalmente.

Troca de ideias, concordamos, discordamos, abismos nos separam, somos almas gémeas, será desta, nunca nos entenderemos, promessas de encontros, não o quero voltar a ver, foi bom, foi catastrófico, que triste ideia.

E juntamo-nos, finalmente.

Sorvo-te o corpo, devoro-te a alma, insaciável, sempre faminta, quero mais, já chega, saciaste-me, anseio por ti, conheço-te desde sempre, desconheço-te, quero o teu âmago, abafas-me, que triste ideia.

E completámo-nos, finalmente.

Paz da saciedade, beatitude, insatisfação, esmifrei-te, somos um só, adoro-te, odeio-te, só contigo estou bem, contigo perdi quem sou, quero-te, fartei-me, anseio por mais, lamento, soubeste-me a pouco, que triste ideia.

E parto, finalmente.

LUISA LOPES


13.
"Lamento muito, mas soubeste-me a pouco”

Tiveste sempre um jeito próprio de te mostrares, de estares, que me faz perder o equilíbrio e o tino. Fecho os olhos e percebo-te na minha rotina – visto-me de ti – são de veludo os traços que me visitam a pele, que me acendem os sentidos – são teus os olhos que, em lufadas de azul, me atiram para o extremo em que me perco em promessas de paraíso. Reescrevo em linhas infinitas os teu gestos e desenho o som do teu olhar para lá da névoa que se adensa na distância do seu brilho.
Atrevo-me pelo teu corpo na ânsia da conquista que o sol reclama à madrugada, com a convicção, quase divina, de que os meus dedos encontrarão na humidade dos teus lábios, o tempo do beijo, o tempo do suicídio da agonia que me invade por me saber ausente em ti – esse é o momento em que estendo a mão, mas o tempo nada me devolve. Olho as mãos: estão vazias – apenas ali se esconde a tua presença de total ausência, reduzindo-me à cinza de mim mesmo. De repente não sei o que fazer com a vida, nem como dar arte aos dias que permanecem perdidos a um canto à espera de serem cuidados.
Arrisquei não deixar de te amar, mas sei que deslizas indiferente a este meu sentir, não vivem no teu pensamento as páginas em que empilho a tua presença e reinvento a nossa história em abraços de devaneio – por estradas que não vamos mais trilhar.
Sei que serão outros os braços que acolherão a tua vasta beleza quando, a cada final de tarde, as sombras me perscrutarem os sonhos, em busca de um “brilhozinho nos olhos” e Sérgio Godinho bordar no ar as palavras do seu poema: 

“(…) Quem éramos nós
Quem queríamos ser
E quais as esperanças
Que a vida roubou
(…)
E o que é que foi que ele disse? 
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
 (…)
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
(…)
Portanto
Hoje soube-me a pouco…”

ELIZABETH SEIXO


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2015.11.17_DINÂMICAS DA 13 - II SÉRIE - TEXTO HUMORISTICO

"Sou Imortal Até Prova em Contrário
 01.
Estranhei ver-me: pálido, roupa domingueira, mãos cruzadas sobre o peito. Não me reconheci na expressão, sisudo, apático, sem vida. Não estivesse a ver-me e pensaria que teria morrido (que disparate). A ver? Não deixa de ser estranho.
Estava deitado numa cama diferente, forrada de cetim pérola, acolchoado (não parecia nada confortável).
À minha volta os familiares e alguns amigos. Rostos fechados, roupas pretas (arriscaria dizer de luto). A cena era caricata. Tive vontade de rir. E eles choravam.
A minha prima Mariana era a mais espalhafatosa. Toda ela, desde gaiata. Dir-se-ia que nasceu velha. Nas vestes, na postura e essencialmente na forma de pensar. Sempre muito atinada, cumpria à risca as instruções da avó ou da tia Carlota, e não se coibia a delatar-me quando, como habitualmente, fazia das minhas. Devo-lhe uns quantos açoites. Nunca fomos próximos. Em comum apenas o sangue. 
O Carlos e o Jorge mantinham-se a um canto, calados, sem reação. A avaliar pelos semblantes dir-se-ia que o Benfica perdeu (mas nem sequer é sábado).
“Bebemos um gin, rapazes?”
Longe iam os tempos em que, encegueirados com as moçoilas, corríamos os bailes das redondezas atrás de um rabo de saias. E há rabos e rabos. O Carlos nunca foi esquisito (chamava-lhe o “boquinha de cabra”). O Jorge sempre se fez mais difícil. Eu tinha dias. Dependia da oferta porque procura sempre a houve (mesmo que não fosse nada de especial).
A sala era pequena. Não estávamos em minha casa. As paredes estavam nuas. Um quadro ali, outro além. Uns com santos, outros abstratos (duvido que alguém lhe encontrasse lógica). Tresandava a flores e o ambiente estava quente. A prima Mariana tinha as faces coradas, parecia a versão sénior da Heidi. Certamente que a Heidi ter-se-ia tornado uma prima Mariana e estaria gorda, incapaz de correr atrás das cabras nas montanhas. Que digo eu? Estarei louco? Divago sem rumo sem perceber onde estou e para onde vou. Nunca soube, desde pequeno. Sempre me senti errante, inadaptado. Questionei a minha existência. Quis pôr-lhe termo. Até nisso fui patético: a vontade da corda sobrepôs-se à minha; rebentou e com ela os meus intentos
Continuo a olhar-me, sem parar de rir. Que raio de roupa vesti (nem parece escolhida por mim, não faço tais combinações).
Percebo por fim.
Contenho o sorriso.
Estou morto e continuo a rir."
NUNO FRANCO PIRES


02.
Sou imortal até prova em contrário
666

É como lhe digo, senhor doutor juiz, exijo uma prova.
Concreta, de preferência.
Acha que estou a exagerar? Estranha a minha indignação?
Pois digo-lhe: era vê-los a invadirem-me a residência, já de si modesta, a cata de comeres e beberes.
À pato, ainda por cima.
Já não basta o que basta. A minha Marquitas já andava sabe deus como. (E talvez saiba, porque que eu cá não faço a menor ideia). Desde de manhã aos ais. O pranto solto.
Sem o recato de lágrimas que se impõe a uma mulher decente: que aguarde a noite e as verta no chão de terra, sem que um olho desconfie do outro. Assim manda a tradição.
Comecei por tentar perceber. Perguntas ao vento, isso sim. Como se nem me visse, nem ouvisse. Raios de mulher. Teria perdido todo o sentido de decoro e respeito? Seriam os olhos raiados sinal de desvario?
Perdi o tino. Tinha os meus brios. Caí na porrada, mesmo. Parti para a força bruta.
Em abono da verdade, teria partido: se não fosse a tal invasão.
Conhecidos, desconhecidos: todos parentes. Todos a dirigirem-se à sala de visitas.
Sim, na verdade, até nós nos rimos quando chamamos dessa forma pomposa àquele quartinho maior que ficou vago assim que o Júnior teve que sair da terra: a toque de caixa por se ter metido com a esposa do barbeiro.
Diacho de rapaz. Enrabichado pelos olhos da senhora dona (bem dona do seu nariz, por sinal, e outros atributos que não são agora para aqui chamados), fez ouvidos de mercador às palavras do patriarca e aos apelos da mãe. Vai o homem pôs-se a ouvir os dizquedisses que lhe iam parar à cadeira e, um belo dia, o rapaz foi lá fazer o cabelo e ia perdendo a cabeça.
Ou o que dela sobrava.
Que, aqui para nós, meritíssimo, perder a cabeça pelos olhos da senhora dona Amália não era tarefa difícil.
 Amalinda? Diz-me o senhor doutor juiz que disse Amalinda?
Não, tenho a certeza que ouviu mal.
Há que haver respeito, cada um no seu devido lugar. Era lá eu capaz.
Está a parecer a minha Marquitas, desculpe a comparação, desconfiada como só ela. Chama-lhe sexto sentido. Para mim usa demasiado o do faro. Quero eu dizer que mete demais o nariz onde não é chamada.
Ora não querem lá ver. Um homem chegar a pontos de ter que se justificar na sua própria casa.
E voltamos ao que aqui me trouxe, meritíssimo: a casa era minha.
E estava a ser invadida por grande parte da pouco numerosa população da nossa aldeia.
Entravam pela porta escancarada e dirigiam-se sem a menor cerimónia, apesar do ar cerimonioso, ao centro da sala.
Sei lá eu o que lá estava. Eram muitos em redor.
Ouvia apenas os ais da Miquelina, os prantos exaltados das vizinhas: todos parentes.
Não, não me aproximei.
Ainda por lá encontrava as provas que aqui lhe vim pedir.
Concretas, de preferência.
EDUARDA FAIA


03.

“Sou Imortal até Prova em Contrário”


Pediste-me em casamento numa tarde quente, daquelas que marcam o inicio do verão e fazem os passarinhos cruzar o céu felizes, depois de termos almoçado na casa do meu “ti Manel” umas ricas migas. Olaré. Tenho cá para mim que o unto das migas olearam-te a vontade e finalmente fizeste o pedido há muito por mim esperado. Abençoado pingue. Estavas nervoso e um nadinha rosadinho, a casa do tio é quente e ele tem aquela mania parva de não deixar abrir as janelas – afronta-me, mas sempre é melhor afrontada que com moscas à volta da cabeça –, e depois quem é que ía dar importância a esses pormenores quando toda uma vida acontecia debaixo da mesa? És maroto e eu bem sei que esse ar rude é disfarce, que não gostas de te dar por tuta e meia e és um homem de palavra. O coração saltava-me à boca a cada vez que te chegavas perto e só não digeria bem as tardes que passavas na “taberna da coxa”. Sempre gostaste da pinga desde os tempos de rapazolas quando depois da vindima te enfiavas, com outros, na adega a limpar o que restava das pipas. Um altruísta, sempre pronto para ajudar. Um filantropo que aqui a Mena gosta de usar as palavras certas nos momentos certos, como aquele em que me arrebataste o coração. Entre um soluço e outro – que as migas estavam puxadas – pegaste-me na mão e com os olhos meio abertos meio fechados lá me disseste que eu era a mulher da tua vida e que me querias a teu lado para sempre. Foi de um romantismo personalizado, mesmo ao teu jeito. Eu, Filomena de Jesus, tua mulher para sempre! Nunca na vida me vou esquecer da emoção com que depois me caíste nos braços e eu tive de pedir ao ti Manel que te deixasse descansar um bocadinho no sofá enquanto fui a correr contar a novidade às mulheres que estavam a preparar a coalha dos queijos ao lume. Depois desse dia iria tratar de ti para sempre. Haverá maior loucura que essa na vida de uma mulher? Para sempre! Mesmo ao jeito do somos imortais e nada nem ninguém nos vai separar. Até àquele dia em que chegaste a casa, vinhas da coxa, e a cambalear falhaste o corrimão das escadas. Sempre gostaste mais do vinho que das migas.

ANA DE MATOS PINTO

04
Imortal até prova em contrário
Através da vida fui acumulando provas. Em primeiro lugar nasci em Portugal que como é sabido não ajuda, especialmente os portugueses- que também não sabem ajudar-se, preferindo esperar por milagres. Passei pelo intervalo das reguadas na escola primária, sem nunca ter sido maltratado pelos colegas de infortúnio; talvez o facto da maioria ter as mãos e os pés gelados e o farnel minguado não ajudasse. As provas de imortalidade foram-se acumulando quando conseguíamos passar a fronteira para comprar azeite ou outros bens de primeira necessidade enquanto os guardas assobiavam distraidamente para o lado. Quase a embarcar para Africa passeei na faculdade errada durante alguns anos, acrescentando mais uns pontos ao cartão da imortalidade. 
Desde aí que me convenço que “alguém lá em cima gosta de mim” e que me prepara um lugar especial- não, não sendo eu futebolista ou politico, não terei lugar no Panteão. Ainda há dias entrei no barbeiro e enquanto a navalha escanhoava o queixo perguntei se passavam factura, completamente ausente da realidade. Pior do que isso só o dia em que num restaurante o dono solícito me perguntou que tal a carne? respondi de forma simpática “a carne é fraca”, arriscando ser espancado. Esta minha mania de tentar ter graça mesmo com assuntos importantes ainda me prejudica a mortalidade. Estive muito perto no dia em que a minha chefe, espanhola (um dia explico melhor este assunto), contava alegremente que o marido tinha uma empresa de vinhos passando grande parte do dia em quintas a provar os vários néctares, mas que em casa, ao jantar, bebia água; mais uma vez e novamente por distracção lá lhe fui dizendo” tens sorte ele não ser ginecologista”, frase que ela gravou de forma indelével, visível desde logo pelo sorriso que me gelou; ainda tentei justificar com um “Lost in translation” explicando que nós portugueses somos péssimos em traduções. Felizmente conseguiu ser despedida antes de me terem convidado a sair. Não sei porquê nunca conseguimos gostar um do outro (não de forma literal, entenda-se).
Logo, não me posso queixar de imortalidade. Pensando bem, se tivesse nascido nalguns países africanos já tinha atingido a esperança de vida praí duas vezes. 
Sei que vou ser imortal, até ao dia em que existir uma única pessoa que tenha gostado de mim; a partir desse dia não preciso de provas.

CARLOS MUSGA

05.
No notário, dirijo-me ao balcão das reclamações:
- Boa tarde! – cumprimenta-me a funcionária.
- Antes fosse boa tarde! Venho reclamar e não estou nada bem disposto.
- Faça o favor…
- Recebi o meu cartão de cidadão. A data de nascimento, que  marca o início da minha vida – registada na conservatória e tudo! -,  está bem assinalada.  Que eu saiba só consta essa data na conservatória... Então, porque é que o cartão tem validade por 5 anos?
-Há aqui um equívoco: a validade é do cartão, não da vida do senhor…
- Pois fique sabendo: exijo o que me é de direito: cartão vitalício.
- Mas ainda não atingiu a idade que…
- Nem preciso! Até prova em contrário, sou imortal! E digo mais: quando a morte chegar, mascaro-me de moribundo peçonhento para que ela tenha nojo de mim... Imagino-a então de saia arregaçada a saltitar por entre o chão húmido onde me deito, horrorizada com a cheiro pestilento que exalo e, aos saltinhos, vê-la-ei  desaparecer na esquina...
- Dizem que todos a iremos encontrar e não há volta a dar…
- Balelas! Fintarei a morte para que a minha imortalidade não perca a validade. A espertinha, só porque anda com problemas existenciais, que não me xingue o juízo! Aliás eu sobrevirei sempre! Não nos dizem que a vida é o valor mais alto que temos?! Vai ver…
- Poderei já não estar cá para ver…
- Ah pois é: da História não rezam os fracos! 
Então, antes que seja tarde, passe-me para cá um cartão de cidadão vitalício!

ANA BRITO LANÇA

06.
“Sou Imortal Até Prova em Contrário” 
Era uma vez um reino no qual alguns podiam ganhar milhões e serem felizes para sempre. Viviam acima das possibilidades, dizia-se, nada porém que lhes tirasse o sono. Andavam frequentemente em viagem de negócios – destinos tão variados como Madrid, Paris ou Bruxelas (a CEE, em início, estava aí em força), mas que incluíam (aleatoriamente, claro), passagens por Cabo Verde, Caraíbas, Riviera Maia ou Egipto (as pirâmides, ai as pirâmides – tantos negócios pululavam perto das suas bases) e as companhias aéreas são mesmo assim – sempre prontas a fazer desvios – isto de ir directamente pelo caminho mais curto não era rentável e companhias low-cost era um termo desconhecido no vocabulário da época. 

Havia, também, umas comezainas que podiam ser no tasco do Zé da esquina, mas que habitualmente ocorriam nalgum tasco gourmet – coisa pouca – e os alojamentos eram em hotéis de 5 estrelas – os melhores para “estabelecer contactos” (o léxico ignorava, ainda, o networking)!
As viagens e os hotéis desfrutavam-se, das refeições fazia-se a respectiva digestão e, no final, sobravam uns pequenos papelitos, sem importância de maior – chamavam-se facturas. Alguns até eram factura/recibo mas, por vezes, o recibo não acompanhava a factura (só por um qualquer lapso, evidentemente), e não referia o nome do viajante nem o destino. 
Por vezes o visado era bafejado pelo milagre da multiplicação e conseguia a proeza de se encontrar em dois locais diferentes, à mesma hora, ou chegar antes de partir – uma proeza só igualável pelo famoso e saudoso Concorde. Nada, porém, que o impedisse de entregar, atempadamente, os papelitos para reembolso!

Essas despesas chamavam-se, à época, despesas de representação. Eram tão populares que muitos sobreviviam sem precisar de declarar o seu IRS (em tempos idos: Imposto Profissional) pois todo o seu trabalho se resumia a viagens e refeições em integral representação da empresa! 
É claro que trabalhar em empresas desta natureza, verdadeiros oásis (algumas com delegações em certos paraísos e amigas do seu amigo – propensas a doações), é o sonho de qualquer simples mortal, mas difícil de concretizar! 
O sucesso foi tão grande que o hábito instalou-se e ainda por aí prolifera – digamos que agora, no mínimo – modernices trazidas pelo IVA –, se exige que figure, nos papelitos, o nome e o destino do utente!
Alguém me confidenciou que quando interpelados e confrontados com a questão: “porque não viviam eles como qualquer comum mortal?” – eles declaravam que, até prova em contrário, se consideravam imortais…

ELIZABETH SEIXO

07.
Imortal ou Gato

- Um gato é o que sou- Comentou, passando a mão pela farta cabeleira que só existia na parte detrás da nuca ,  fazendo uma boquinha  que o espelho devolveu com uma careta- Um verdadeiro gato- Repetiu  arranhando  a atmosfera- Grauuuu.
 Saiu convencidíssimo de que o lugar do mundo era precisamente aos seus pés, talvez por isso mesmo, caminhasse num gingar de ancas absolutamente estrondoso: palavras suas. A verdade é que por onde passava despertava a curiosidade. Andava aos saltinhos, um saltinho, anca para o lado direito, o ombro do lado esquerdo fica à altura da cintura, outro saltinho anca para o lado esquerdo e o ombro contrário à altura da cintura. Não raro eram as apostas que os colegas faziam atrás de si.
-Aposto que ele não vai passar entre a senhora gorda e o fulano do chapéu.
- Eu cá aposto que passa e sem tocar em ninguém.
E passava, com passos mirabolantes, rodopios indescritíveis ou simplesmente porque as pessoas se afastavam incrédulas com o desafiar, bem sucedido, da força da gravidade.
Sentou-se na esplanada, pernas cruzadas, macho alfa, muito alfa, pouco macho, e rodopiou com a cadeira  de tal forma  que  o penteado  Vintage da senhora que passava por ele no momento se prendeu no chapéu-de-sol, enquanto o salto agulha do scarpin se entalava na calçada, foram precisas três pessoas para a retirar daquele entalanço espontâneo.
Uma das quais o nosso herói, o que ainda lhe valeu uma valente maletada (pancada com mala), quando sugeriu que lhe cortassem o cabelo, até porque estava completamente fora de moda.
A senhora gritava como se não houvesse amanhã. O sapato não saía, o cabelo não se desprendia e a mala disparava cacetadas o que tornava ainda mais difícil a tarefa de a resgatar à insólita situação.
Finalmente soltaram a senhora, com algum prejuízo para o cabelo Vintage, é certo.
-Depois disto, eu acho que sou imortal- Referiu o dono do café.
-Até prova em contrário, somos todos-Replicou o empregado de mesa
- Eu não- Disse o nosso amigo saltitante.
-Porque não?-Dono do café e empregado de mesa em uníssono.
- Ora, porque eu sou um gato!!!E um gato pode não ser imortal mas pelo menos tem sete vidas. 

SANDRA CORGA FIGUEIREDO

08
Vira desaparecer os companheiros um a um, era agora o único que restava. E no entanto o dia tinha começado de um modo tão esperançoso!
O pequeno grupo de quatro a que pertencia encontrara rapidamente outros, formando em pouco tempo uma força considerável que partira a explorar a região.
Tudo viram, em tudo tocaram, inebriados por tantas coisas desconhecidas. O prazer da descoberta nunca empalidecia, estava-lhes no sangue. Parecia até que cada coisa nova que viam ou sentiam fazia aumentar o desejo de ir mais longe, de ver e fazer o mais possível.
As primeiras horas foram pois um crescendo de emoções que parecia interminável. Mas, pouco a pouco, foram deixando companheiros para trás, uns abatidos, outros largando o grupo sem que soubessem muito bem porquê.
Mas não se detinham, seguiam sempre sob o impulso avassalador de encontrar o que procuravam, mesmo sem saberem o que era.
As horas foram passando e o grupo diminuía a olhos vistos, mas não a vontade de continuarem. Esta parecia até mais forte, mais premente do que de manhã, quando tudo parecia novo e cheio de possibilidades.
Começava a escurecer quando perdeu o último companheiro. Pouco capaz de atuar no escuro, decidiu parar e descansar. De manhã continuaria certamente a busca, difícil seria controlar a ânsia de partir durante umas horas. Mas havia de conseguir.
Instalou-se, pois, comodamente, deleitando-se mentalmente com tudo o que faria e veria no dia seguinte, as muitas coisas desconhecidas com que se deleitaria e, quem sabe, talvez encontrasse o que procurava desde a manhã.
O último pensamento da pequena efémera antes de tombar morta foi, “tudo é possível, afinal sou imortal até prova em contrário.”

LUISA LOPES


09

“Sou imortal até prova em contrário”


Quando nasci, a parteira pegou-me pelos pés e, quando me deu uma palmada pra chorar, retorci-me e ela largou-me. Resultado: caí de cabeça e fiquei assim, com um grande melão. Maior que o da minha mãe – mãe à moda antiga – que queria um menino sossegado e saiu este espécime que vos fala.
Imaginem que comecei precocemente a gatinhar só para fazer disparates: tentava comer tudo o que apanhava (só para ver os meus pais aflitos, a correr para o hospital para me tirarem as coisas da garganta ou do estômago), atirava tudo ao chão só para ver as coisas partir-se e poder arranjá-las (era o meu espírito de engenharia já latente), brincar com o cão e comer a sua comida... Imaginem que só comecei a falar quase aos dois anos, só para não ter que me explicar dos disparates que fazia.
Ah! E já era líder. Levava as minhas primas, mais velhas que eu, a fazer o que eu queria, desde tentar tirar a minha irmã do berço ou entrar nele, até brincarmos de cozinheiros, onde o chefe (eu, claro) mandava os ajudantes tirar tudo o que se lembrava e apanhava na dispensa para fazer bolos.
E a cara da mamã quando aparecia e nos via no chão, cobertos de leite, farinha, açúcar, ovos, etc, era de fugir.
Mas, mais palmada, menos palmada, lá ia crescendo em disparates.
Em disparates, altura e peso.
Mas a mamã não era como as de agora: “Mamã, não gosto do comer”. “Coitadinho, então a mamã vai já fazer outra coisa.” Não! A minha era mais “também não gosto de muita coisa. E é melhor comeres tudo antes que vá aí.” E, meia hora ou três horas depois, lá acabava por comer o que não gostava.
E quando íamos comer a algum lado, era sempre: “Agora vê como te portas!” “Não me envergonhes.” “Não ponhas os cotovelos em cima da mesa.” “Não sejas alarve!” E, quando estava a comer, se me enganava no talher ou não fechava a boca a mastigar, lá vinha o olhar temido, com a promessa da colher de pau quando chegasse a casa.
Sim, e sabem que mais? Ia para a rua e, sempre que chegava a casa com nódoas negras ou feridas, ainda levava mais, para aprender.
É isso: se sobrevivi a uma infância de brincadeiras na rua, bicicleta, a comer de tudo sem me preocupar, e estou vivo, só há uma conclusão: sou imortal!

ANTÓNIO CASTEL-BRANCO

10.
– Maria, sabes quem morreu?
– Não. Tinha que saber?
– Certamente que sim.
– Então… quem foi?
– O Padre Tonito!
– O da freguesia de baixo?
– Sim!
– Também não admira! Já era velho que chegasse para ir andando.
– Mas ele sempre disse que era Imortal. Como pode ter morrido? Os imortais não morrem!
– Regina, ainda acreditas nessas balelas? Qual imortal, qual carapuça!
– Vais ver que ainda nos vai aparecer durante a noite. Aquele fantasma terrível que ele era, vai tornar-se ainda pior. HUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!
– Lembras-te de cada uma! Isso era o que ele dizia para nos meter medo. Não acredito nisso da imortalidade, até me provarem o contrário. Conheces alguém que tivesse voltado, depois de ter desencarnado? EU não! Isso são tretas do espiritismo.
– Não brinques, Maria. Olha que isso são coisas sérias.
– Sérias, enquanto não me rio. Cada um tem a crença que tem. Acreditas que és imortal?
– Até me provares o contrário, com certeza que sou.
– Pois és uma crente parva! Só és imortal até morreres e ninguém pode provar-te o contrário. Ainda se fosses uma pessoa muito “famosa”, como, por exemplo, uma escritora, uma compositora! Aí a tua imortalidade mantinha-se mas através das obras que deixasses. Agora fisicamente… já eras! Bem vais lá p’rós anjinhos ou diabinhos, conforme o teu comportamento.
– Ai Maria, vais ser a primeira a quem o Padre Tonito vai aparecer, só para te provar que é realmente imortal.
– Ó pá! Não me chateies com essas conversas de treta. O que eu quero é divertir-me… Depois, bem… depois há de se ver!

NATÁLIA VALE